quarta-feira, 14 de outubro de 2009

ROMANTISMO VELADO



Poucos discordam de que um olhar pode não só representar muito bem uma realidade, mas também pode alterá-la. E os também românticos também sabem disso. Desde o último romântico a deixar de balilar nos campos – O DERNIER PIED-NOIR franco-argelino ZINEDINE ZIDANE – encontrei no tema em questão ausência de razões para o viés complexo, subjetivo e conotativo frente às paixões mais avassaladoras.





Mas o dia de ontem me fez acreditar que o futebol, apaixonante em sua essência, pode trazer à tona o mesmo sentimento que obtive na relação com ele durante os últimos anos; a atmosfera ajudou: Flamengo, Maracanã e Futebol formam um trinômio dos mais expressivos, um banquete que anuncia que emoções estão por vir a qualquer momento. Mas relacionar o cracaço de bola Zidane com o sérvio Dejan PETKOVIC deve ter os seus mistérios; para não parecer complexo, focalizemos apenas um ato comum a ambos. Como em uma ópera, em que os atos são valorizados em cenas específicas  – apontem argumentos contra isso, por favor – alguns lances no futebol são cenográficos e trazem à vista dos mais ansiosos belos momentos além dos vistos pela generalidade.

Um brilhou no maior evento esportivo já criado, a Copa do Mundo, cujo foco está dante da retina de 3 bilhoes de indivíduos; o outro nao foi tão longe, mas aproveitou o mai charmoso estádio do mundo e a rivalidade dos dois maiores campeões em solo brasileiro para deixar suas marcas.
Em ambos, o momento mais fatal do esporte, a cobrança da penalidade máxima; a ambos os atores, a responsabilidde de triunfar no lance perante o goleiro; e afim aos dois, o misto de frieza, sensibilidade e ironia, presente apenas a quem nasceu para ser idolatrado.

O toque sutil ao gol, com a bola descrevendo uma lenta e mordaz parábola, corroeu as chances de os goleiros simularem qualquer tipo de reação, atitude típica do seleto grupo dos fora de série, em que a vicissitude se faz mais presente em vários momentos. E isso tudo COMO SE COM OS ROMÂNTICOS assim também não o fosse.





segunda-feira, 12 de outubro de 2009

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

LOBOS DAS ESTEPES (foi mal, herman hesse!)



Pau neles, compadre!
Por Millor Fernandes

Vocês, que continuam com visão romântica do homem (atualmente chamado de ser humano –como se fosse! – por imposição feminista), tirem o cavalinho idiota da chuva. Repito-me: o ser humano é um animal inviável. Em bando então, em grupo, em congresso, em Congresso, na assim dita coletividade, a guerra é certa, escravizar o irmão tentação irresistível, o assalto ao mais fraco compulsivo. A milícia protetora cria o milico e feroz. A mais famosa fraternidade ainda é a de Caim.

A generosidade dura apenas – se – o tempo do primitivismo. Até o paleolítico o pitecantropo só podia ser comunista. A carne apodrecia rapidamente (cheirava mal) e reparti-la era inevitável. No neolítico, quando se inventaram os vasilhames, o comunismo foi pro brejo, imenso, na época.

Deem uma leiturinha na história, desde os horrores da Mesopotâmia – ressuscitados hoje, brilhantemente, por Saddam e Bush –, passando pela Grécia de sangueiras e traições transformadas em glória e mito pelo talento homérico, passem pela impertérrita Inglaterra, cuja "revolução industrial" se alicerçou no tráfico de escravos e no saque (muito de nosso ouro, via Portugal). E nos Estados Unidos, esse gigante democrático, como foi? Perguntem a Búfalo Bill e ao general Custer, se não querem perguntar aos mexicanos. Ah, não se esqueçam de Hiroshima e Nagasaki. A Espanha, Deus do céu!; as touradas são apenas jogos infantis diante de sua colonização (Montezuma que o diga) nos quatro ou cinco cantos do mundo. E não vamos esquecer da Inquisição, Santa, aliás. A Holanda só não tem diques contra a própria e permanente cupidez. A Alemanha, pra só falar nos tempos atuais, inventou os campos de concentração, adotados rapidamente em todo o mundo democrático. Mas a revelação dos campos de concentração é um fato pós-guerra. Se os alemães tivessem vencido, isso jamais apareceria e vocês iam ficar estarrecidos com os horrores praticados pelos "nossos". Na Rússia de sempiterna crueldade, o homem sempre foi o lobo da estepe do homem. Quantas pessoas Stalin matou: dez, vinte, trinta, quarenta milhões? E os tzares? Foram uns querubins?

Dinamarca, os ingleses primitivos que o digam, Etiópia, onde há pouco mais de vinte anos os marxistas acabaram com uma das mais antigas aristocracias do mundo, Egito, aquele, dos Faraós, África do Sul, aquela, do Apartheid. E desçam pela América Central, revejam Incas, Maias, Astecas e constatem que esses povos, quando não estavam sendo violentados pelos europeus, estavam praticando as suas próprias barbaridades diuturnas em forma até de ritual sagrado. De violência em violência cheguem ao Brasil, esse oásis, antiga residência do homem cordial, atualmente pátria do bom selvagem, que vende as matas aos madeireiros, explora os companheiros e, de vez em quando, como lazer, violenta uma branca distraída. No passado não foi pior apenas por incompetência – só inventou bordunas. Mas pra que servem bordunas? Pra dar bordunadas.

Aos que acham que a violência de nosso tempo é maior do que jamais foi, devido ao excesso de população, estou parcialmente de acordo com eles. Não é só o excesso, é a concentração. Noutro dia fui andar na Avenida Copacabana e toda a superpopulação estava na rua.

E só existe um controle populacional infalível – a prosperidade. Portanto temos que acabar com a pobreza, de preferência eliminando os pobres. Pobre transa demais, gente!

terça-feira, 6 de outubro de 2009

FALTAVAM 25 anos e alguns dias












Poderia ter começado usando o tempo verbal no presente, mas o imperfeito deu-se mais apropriado, porque corria o ano de 84 e eu já um fã dos principais esportes do mundo.

Ainda que a maior fixação esportiva se desse pelas idas ao maracanã para ver o Flamengo campeão e uns jogos da seleção masculina de vôlei, prata em 82, a minha afinidade pelo esporte já aflorava - as mesmas belas flores da Paloma - e me encaminhava a este mundo de maneira irreversível.

O estalo inicial talvez tenha se dado com este daí das fotos acima, JOAQUIM CRUZ, que na madrugada de seis de agosto de 1984 não me tirou o sono mas me fez sonhar com o pódio.



Enquanto Joaquim corria rumo ao ouro eu, molecote dos mais sacanas, dormia intensamente; mas ao passo que era ninado ao braços de Morfeu, senti que a vitória viria. Ao acordar pela manhã, ouvi de minha mãe a informação: "Filho, aquele corredor de quem você gosta, o JOAQUIM CRUZ, ganhou o ouro!"; rapidamente rebati: "JÁ SEI!!!!!"

Sonho, visão ou poesia, antes que o questionamento da minha certeza frente a este fato viesse ao ar, saí de fininho com um sorriso irônico por ter confirmado o sonho e em nada lamentei por ter "perdido" o ouro que me marcaria em definitivo como um admirador do esporte em várias dimensões.


















Aconteceu que na última sexta-feira, em um almoço com o designer Hans Donner, sequer apercebi-me de que a escolha da sede das Olimpíadas de 2016 estava em andamento e mais uma vez "perdi", tal qual o ouro do Joaquim, o anúncio da minha cidade de origem como a vencedora.
Da mesma forma que a minha mãe há 25 anos e alguns dias, Hans Donner, possivelmente o mais brasileiro entre os austríacos - que diremos entre os designers - me avisou com um abraço e um sorriso dos mais sinceros que o Rio de Janeiro havia ganho; mas desta vez eu não imaginei, nem sonhei e muito menos vivi poesias com o fato.

A "perda" do anúncio da cidade-sede me faz, agora, mudar o tempo verbal e vislumbrar um evento histórico no Rio daqui a sete anos. E espero não precisar citar outro gênio, Nélson Rodrigues, que "esmurrou" com palavras os que padeciam do "complexo de vira-latas" e repudiam a presença dos Jogos por aqui com argumentos esdrúxulos ligados aos nossos problemas, mazelas, chagas e conflitos.


sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Um passeio pelo reino de HADES











OS FRANCESES NÃO são conhecidos pela simpatia nem pelo bom humor, mas tampouco podem ser considerados o povo mais sorumbático do planeta. Por isso, não deixa de ser surpreendente o inegável fascínio dessa gente pelo mundo subterrâneo. A começar pelo metrô de Paris, uma marca registrada da cidade, que conta com 16 linhas por onde circulam cerca de 5 milhões de pessoas diariamente.

Nada de assustador, se parasse por aí. Acontece que as opções de turismo da cidade não passam apenas pelos manjados Arco do Triunfo, Torre Eiffel e Museu do Louvre. Na verdade, estou chegando à conclusão que os franceses são capazes de transformar tudo em atração turística. Em 1995, quando estive em Paris pela primeira vez, achei curioso o fato de um cemitério – o Père-Lachaise – ser muito visitado por causa de seus “cadáveres ilustres”, mas agora o ponto de exclamação foi maior: pode-se fazer turismo pelas catacumbas da cidade, que ostentam ossos e caveiras dos mortos pelas antigas epidemias que assolaram o lugar até 1785, ano de construção da rede.

Como se não bastasse, ainda podemos fazer um passeio pelos esgotos de Paris. Isso mesmo: os parisienses sentem um orgulho imenso do sistema de tratamento de água da cidade. E lá nos esgotos encontramos um museu com mostra permanente sobre o processo de saneamento, a história do abastecimento desde os tempos mais remotos e a garantia, no final, de que a água das torneiras, vinda do Rio Sena, é totalmente livre de impurezas e pode ser bebida sem medo.

O museu ainda destaca a célebre obra de Victor Hugo, Os miseráveis (1862), e reproduz parte do romance em que o protagonista Jean Valjean atravessa os esgotos de Paris numa fuga, carregando o personagem Marius nas costas. Descobrimos ali que Hugo era amigo de um inspetor de saneamento e pôde visitar as galerias para melhor descrevê-las em seu romance.

Apesar do mau cheiro constante, a visita vale pelo inusitado. E até mesmo a lojinha de souvenirs do museu é capaz de surpreender. As lembrancinhas mais procuradas são os ratos de pelúcia, de todos os tamanhos e diferentes cores. Não resisti e comprei um que treme.