quinta-feira, 19 de novembro de 2009

40. RARAS ANDORINHAS


Há tempos penso em escrever sobre Shakespeare neste espaço; da mesma forma que fiz com Camus, Bukowski e Machado, pensei em Hamlet, Lear, Otelo e um dos objetivos com a homenagem foi tentar destrinchar o primeiro homem, o homem inalcançável: quem será este que vive além dos limites humanos e surpreende ao abrir espaços e portas a outros que jamais irão alcançá-las, e a quem só cabe admirá-las?

Na verdade, entrei por outro caminho, e meu tio NATO LIMA virou foco de atenção e Shakespeare ficou para outra época; a bem da verdade, não seria louco de me ater a comparações, ainda que Nato Lima faça parte de qualquer lista brasileira dos melhores violonistas em todos os tempos - já reservo logo o meu receio à expressão "entre os melhores", já que estar entre os melhores pode significar ser o melhor do mundo ou pertencer aos 100 primeiros de um grupo qualquer.

A verdade é que aqui venho, após uma semana de luto, a mostrar um misto de tristeza, resignação e esperança com a morte de tio Nato, no último domingo, em decorrência de um câncer.

Meu último encontro com tio Nato foi no mês de abril, e a surpresa com ele sempre se deu pela alegria, simplicidade e pouco valor a sua hitória como músico. O DESAPEGO À FAMA e aos limites impostos pelo mercado - inclusive pela ojeriza aos registros fotográficos, o que me impediu de marcar ad eternum esse ilustre encontro - fizeram dele um sujeito único, não apenas pela árdua e consagrada caminhada, mas também pela proposta de superação. Um grande amigo, o cineasta Bernardo Antunes, enxergou que "é facil ser músico erudito quando se nasce na Europa e desde cedo se estuda em escolas gabaritadas, com grandes professores; outro lance é sair de uma tribo de índios, sem escola, sem pais ou qualquer outra orientação e aprender a tocar violão como poucos no mundo".

Muito de minha tristeza ao olhar para o que o meu tio deixou hoje se dá pelos anos de desvalorização do seu trabalho vindo da própria família. O desapego à qualidade musical, à qualidade do trio composto pelos irmãos - Nato, Assis (meu avô)e Antenor - só adquiriu valor por poucos, cujo "ouvido clínico" tiveram o dom de apreciar.

Mas a alegria vem pelo orgulho, por ter feito parte desse caminho, ainda que distante, dadas as diferença de idade e os descaminhos criados pelas divergências familiares. Lugar comum, mais um brazuca que se vai e deixa a poucos a sua importância.

Agora, em meu colo, a incumbência de organizar a "fundação Nato Lima", cujo propósito é angariar fundos para a sua vuíva, a também violonista Michiko, e OUTRAS propostas ainda sendo analisadas.

Já que o post e a minha tristeza diante da situação pede que os melhores estejam presentes, deixo a melhor interpretação de Nato e seu irmão Antenor, "Valsa - Opus 64", de Chopin, brilhante e sublime registro à década de 60; vale a informação de que Nato fora o primeiro a transcrever a peça para o violão, antes executada apenas ao piano.

"Deu um trabalho fazer isso no violão! Muito luthier recusou essa parada", confessou Nato em uma de suas agradáveis conversas, deixando claro que um violão comum não seria capaz de entrar nessa seara, e um luthier que se dispusesse a criar um violão com três trastes a mais seria lembrado por ele até os últimos dias.

Força, tio NATO, e obrigado pelo legado deixado por você mesmo louvado - diferentemente de Machado, cuja visão limitou-se a "NÃO TRANSMITIR A NENHUM SER O LEGADO DE SUA MISÉRIA" - miséria esta transformada por Nato, ao sair de uma tribo no interior do Ceará, em riqueza das mais divinas. Andorinha nada cega e de voos rasantes e altíssimos à mesma maneira.



8 comentários:

Paloma Flores disse...

Que maravilhoso esse post e esse vídeo!
Sinto muito pelo seu tio. É doloroso perder alguém que se ama. Um abraço pra você.
Concordo, os brasileiros que, como seu tio, deixaram um legado, foram esquecidos pela maioria. Horrível como o país (e até nós mesmos) dá mais valor ao que vem de fora.

Agnes R. disse...

Pablo, querido, que perda! Mas você só tem mesmo do que se orgulhar, que grande músico (e certamente que grande pessoa) foi o seu tio. Fiquei boquiaberta com esse vídeo.

Não tenho dúvidas de que essa sua veia artística é herança dele. Seguir em frente, portanto, é a melhor homenagem que você poderia lhe render.

Beijo grande!

Valéria Martins disse...

Querido Pablo, que pena a morte do seu tio. Mas que bom que o sobrinho sabe valorizar a vida e obra dele, e que pretende fazer algo para mantê-las vivas. Um beijo com carinho,

Bernardo Simbalista disse...

Grande Nato! Mais um artista brasileiro que se foi cujo valor não foi devidamente reconhecido aqui. Mas deixa estar...Agora deve tar tocando seu violão sereno, nem aí pros problemas. Belo texto, Lima e obrigado pela menção.
abração amigo.

Pablo Lima disse...

Cara Paloma, é interessante perceber que o próprio Nato Lima nunca fez questão de ser valorizado - da maneira que nós, reles mortais, enxergamos como um músico poderia receber o real valor.

Ser valorizado, para ele, era estar em contato com outros músicos,aprender novas canções,
e, principalmente, não ser reconhecido em cada esquina.
Ele via o mundo pelo avesso; um bom exemplo se deu qdo um jazzista de renome o reconheceu em Nova York e ele assim pensou: "que legal, aposto que vc é um grande conhecedor e pesquisador de música! Só alguém assim para saber de onde vim, quem sou e como fiz minha carreira"

Ser conhecido mundialmente, pelo que percebi no contato que tive com ele, não estava em seus planos.

Obrigado pela força e atenção. Fique de olho - e ouvido - nos vídeos de Nato e Tenor, postarei mais deles aqui.

Abraços (:

Pablo Lima disse...

AGNES, pra variar ganhei o dia com o seu comentário! a minha segunda-feira foi outra após ler seus escritos!

Seguirei, pode deixar! (:

bjocas!

Pablo Lima disse...

Querida VAL, valorizar a arte do violão clássico é das minhas especialidades!

Por falar em especialidade, tratar-me com carinho parece ser uma das suas grandes e inúmeras virtudes (:

obrigado pelo apoio!

Pablo Lima disse...

SIMBALA, vc. é dos poucos ilustres que tentou registrar a carreira de Nato Lima em vida, e merece com sobras a menção!

Apareça, seus comentários fazem muita falta por aqui!

Abraços.